Guilherme Endler
Estagiário de Jornalismo
No dia 19 de abril tive o desprazer de assistir à edição diária do Jornal da Globo, aquele que passa quase à meia-noite. Naquela mesma data, Fidel Castro tinha reaparecido em público e feito o anúncio da sua saída do comando do Partido Comunista Cubano. As críticas da Globo à Cuba e ao seu sistema de governo não são novidade, mas a matéria apresentada por William Waack sobre o acontecimento foi uma total falta de profissionalismo.
Waack iniciou o telejornal já falando sobre o assunto. Na matéria, o apresentador afirma que Fidel reconheceu que o sistema socialista é falho e que isso era algo “já sabido pelo resto do mundo”. Note-se que o âncora dá a sua opinião (ou a da empresa) como verdade absoluta. Afirma que o mundo todo já sabia que o socialismo é ruim, como quem diz que o céu é azul. Mas tudo bem, isso é um programa do grupo Marinho, é obvio que vai falar mal de países de esquerda. Até aí, nada de anormal.
Mais adiante, a matéria explica que, a partir de agora, os velhos membros do Birô, que estão no partido desde a Revolução, irão articular as mudanças do país. Waack enfatiza a palavra “velhos”, repetindo-a com ironia e desdém por duas ou três vezes. Fiquei buscando na memória pelo menos três políticos brasileiros que não podem ser considerados “velhos”, mas só me lembrei de Manuela D’ávila. Contudo, nunca vi um âncora de telejornal falando “o velho José Sarney foi reeleito presidente do Senado para dar uma roubadinha por mais dois anos”.
Como disse antes, essas críticas não são novidade. Além disso, Waack adora mostrar seu humor fino por meio de comentários interessantíssimos entre as matérias, ilustrados por seu clássico sorrisinho irônico. Eu só não sabia que ele é consultor de moda também.
No momento em que a imagem de Fidel é mostrada, William Waack premia seus telespectadores com a seguinte frase: “Fidel entrou com esse semblante frágil, vestindo esse casaco que, na minha opinião, mais parece um pijama”.
Essa foi realmente inédita para mim. Nem Boris Casoy, do alto do seu reacionarismo, fez um comentário tão idiota. Qual é o jornalista sério que, no meio de um acontecimento importante, critica a roupa de uma figura histórica como Fidel Castro? Isso é antiprofissional e uma falta de respeito. Quando se trata de criticar Cuba, China, Venezuela, ou qualquer outro país de esquerda, a Globo dá carta branca aos seus funcionários, que chegam ao cúmulo de fazer comentários ridículos como esse, que nada acrescentam aos telespectadores. A empresa faz questão de apontar características ruins desses países, mesmo quando não está falando sobre política.
Quando o Brasil jogou contra a Coréia do Norte na Copa do ano passado, ouvi Galvão Bueno lembrar por diversas vezes que os norte-coreanos são reprimidos pelo seu governo e que não têm liberdade nenhuma. Em compensação, nos jogos contra a França, nunca ouvi nenhum comentário sobre os atos homofóbicos do seu presidente, por exemplo. Aliás, no dia em que William Waack criticar a roupa do Sarkozy durante o Jornal da Globo, prometo que largo o curso de Jornalismo e vou fazer malabarismo na sinaleira.
Não estou dizendo que a Globo, ou qualquer outra emissora, deva concordar com os ideais cubanos, norte-coreanos ou de qualquer outro país. Só acho que mostrar somente os pontos negativos de determinado governo é uma forma de condicionar o público. Quando algum veículo de grande expressão mostrar que a taxa de analfabetismo de Cuba é próxima de zero, ou pelo menos comentar a qualidade excepcional da sua medicina, já me darei por satisfeito. Enquanto isso, prefiro que William Waack guarde suas opiniões sobre moda para si mesmo.