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Arquivo da categoria: Lílian Stein

Viver é uma bobagem

Lílian Stein
Estagiária de Jornalismo

Essa não é uma carta suicida, evidente. Tampouco é um texto com o objetivo de fazer uma reflexão dramática a respeito da rotina, muito menos de despejar uma série de reclamações que elencam um sem-fim de motivos para que alguém salte na frente de um caminhão. De qualquer forma, é necessário insistir: viver é uma grande bobagem.

Inúmeras teorias tentam explicar o que, de fato, fez um bando de gente diferente parar em uma imensidão de lugares diferentes, em situações diferentes, com pensamentos diferentes, tentando planejar qualquer coisa que seja diferente. O fato é que a probabilidade de que alguma dessas teorias esteja correta é extremamente pequena – para não definir como nula. Viver não passa de uma banalidade.

O grande problema é encontrar uma explicação que dê sentido àquela extensa lista de compromissos a serem honrados, prazos a serem cumpridos e páginas da agenda cujas linhas estão repletas de lembretes. Não se esqueça de, enquanto procura essa explicação, devolver os livros à biblioteca, marcar uma consulta no dentista e terminar o fichamento daquele livro da aula de quarta-feira.

Ocorre que não há como fugir de uma longa, cruel e absolutamente absurda fila de tarefas cronometradas. Em meio a isso, talvez reste um curto espaço de tempo, e é nessa hora que até o mais apático dos seres humanos é capaz de enlouquecer. É o momento em que surgem inúmeros questionamentos a respeito do real motivo de se contorcer entre família, dois estágios, uma faculdade e mais um punhado de gente que insistentemente clama por atenção.

“Eu poderia estar na praia, vendendo sanduíche natural e tomando banho de mar a cada fim de dia”. Alguma coisa, no entanto, faz a grande maioria das pessoas desconsiderar a hipótese de uma vida praiana porque acredita ter ambições que vão muito além de um quiosque e uma rede à beira-mar. Tudo culpa do maldito sistema capitalista, acusariam uns. Outros, ao certo, diriam que é absolutamente possível largar tudo e ir para uma praia deserta nas Alagoas, e que apenas não o faz quem não quer ariscar. Sinceramente, não importa.

Viver é uma banalidade justamente pelo fato de que se passa a vida toda procurando um sentido para viver. Parece ser preciso saber o motivo dessa busca constante por um emprego melhor, uma aparência melhor, um amor melhor, uma rotina melhor. As pessoas estudam, trabalham, se relacionam e, em um dia qualquer, absolutamente sem algum sentido aparente, a vida acaba sem que fosse possível compreender o porquê de tanto esforço durante tantos anos. Simplesmente não há sentido nessa tal de vida.

Viver, de fato, é uma bobagem. Não se sabe em que causas e circunstâncias fomos escolhidos para estar aqui – e nada disso tem a ver com qualquer tipo de crença, coincidência ou seja lá o que for.  Viver é uma grande bobagem, mas talvez seja melhor não encontrar tempo para pensar nisso. É provável que viver, e apenas viver, seja a melhor opção.

 
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Publicado por em abril 15, 2011 em Lílian Stein

 

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Ainda há simplicidade

Lílian Stein
Estagiária de Jornalismo

Igual a tantos outros grupos de amigos, também queríamos fazer algo diferente no Carnaval. O destino não importava, apenas desejávamos estar juntos. Acontece que, quando se é universitário, estagiário e, muitas vezes, dependente dos pais, o leque de opções torna-se significativamente mais restrito. Foi então que o surgimento do combo casa-de-amiga-disponível-ingressos-promocionais-a-preços-muito-abaixo-do-normal-e-um-pouco-de-economia nos fez parar em uma das praias mais comentadas do momento.

Jurerê Internacional é um loteamento nobre da praia de Jurerê, localizada a 15 minutos do centro de Florianópolis. É o cenário perfeito para revistas e jornais que falam sobre uma vida bem distante da realidade brasileira. As casas não têm grades, e a maioria das mansões costuma ostentar carros de luxo em seus pátios. Em um breve passeio pela avenida principal da praia projetada para se transformar na Europa brasileira, é possível observar Lamborghinis, Porsches, BMWs e Ferraris. Há festas com camarotes de R$ 40 mil e garrafas de champanhe que chegam à metade dessa bagatela. Nessas festas, em que alguns chegam de helicóptero, as áreas reservadas mostram contadores que incentivam uma competição: quem é capaz de gastar mais?

Muitas mulheres saem de casa como se estivessem indo a uma festa – Jurerê não é o tipo de lugar em que todos vão ao supermercado com cara de quem passou o dia na praia, esqueceu de passar protetor solar e mergulhou em um tubo de creme depois do banho. Os homens, que parecem passar o dia na academia, andam sem camisa. Sungas brancas e extremamente justas também são itens recorrentes em sua movimentada orla. Jurerê Internacional tornou-se a Ibiza do Brasil.

Nem sempre foi assim. Lembro-me que, há mais ou menos 15 anos, visitei o que, na época, era apenas um loteamento vazio que previa a construção de condomínios de luxo. Parecia o lugar perfeito para aqueles casais de idosos que, depois de garantir a vida dos filhos, estão prontos para curtir seus dias de maneira tranquila. Duvido que os próprios idealizadores tenham imaginado que Jurerê se transformaria em um paraíso para algumas pessoas cujo principal objetivo é “ter”.

Esse mundo de ostentação é bastante restrito, evidente. É possível – como foi para um grupo de amigos estagiários, universitários e tantos outros adjetivos que minimizam a conta bancária – aproveitar a rotina de Jurerê de maneira simples. Grande parte das pessoas que frequenta a praia, na verdade, o faz como mero turista ou se enquadra na categoria dos que, mesmo com dinheiro, fogem da ostentação. É confortante ainda encontrar muita gente assim por lá.

Jurerê é, de fato, um paraíso. Faz parte de uma ilha banhada por águas quentes, permite que seus moradores e visitantes circulem sem medo de assaltos e, mesmo com seus disputados day clubs, exala uma tranqüilidade difícil de encontrar em praias cuja trilha sonora são carros com hits do verão no último volume. Em meio à badalação proposta por muitos dos que migram para lá durante o ano, uma coisa é certa: dinheiro não dura a vida toda. Beleza menos ainda. E, se em meio a um mundo muito além da realidade, for possível encontrar algo de verdadeiro – e é –, então ainda é possível acreditar na simplicidade. Ainda que, por vezes, ela esteja à sombra de uma mansão à beira mar.

 
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Publicado por em março 12, 2011 em Lílian Stein

 

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Livrei-me da ideia fixa

Lílian Stein
Estagiária de Jornalismo

Tinha mais ou menos 13 anos e nunca havia lido uma obra canônica de literatura. Detinha-me aos agradáveis livros de crônicas de Luís Fernando Veríssimo – havia devorado o primeiro deles tão logo aprendi a ler. Estava acostumada à linguagem simples e acessível, ao texto leve, à banalidade inteligente da rotina relatada pelo filho de Erico.

Foi então que, na sétima série, a professora de português pediu para que anotássemos na agenda: tínhamos pouco mais de um mês para ler Memórias póstumas de Brás Cubas. A primeira impressão foi boa: eu, que até ali me gabava por ter lido todos os livros da série Vaga-lume Júnior, finalmente estava apta a entrar no mundo de Machado de Assis. Na verdade, apenas achava que estava.

Ocorre que, quando se tem 13 anos e uma cabeça que pensa em qualquer coisa, menos em estudar, apresentar precocemente uma obra do cacife de Machado de Assis pode levar tudo por água abaixo. “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas”. Desisti. No entanto, achei prudente tentar mais algumas vezes – sem sucesso. Saí do Ensino Fundamental sem ter lido Memória póstumas de Brás Cubas e mais tantos outros clássicos cujos resumos procurei na internet. Mais tarde, vi o quanto havia perdido e o tanto mais que precisaria recuperar.

Não critico professores nem métodos de ensino por indicarem esse tipo de literatura a alunos tão jovens. Aliás, sequer tenho conhecimento pedagógico para fazê-lo. O fato é que eu, que sempre estava atrás de algo para ler, acabei me afastando do que hoje vejo, com gritante obviedade, como uma literatura indispensável. Evidente que nunca pensei em deixar de ler, mas continuava achando as crônicas do Veríssimo muito mais interessantes e, por muito tempo, simplesmente as tornei substitutas de outras grandes obras.

Minha ideia fixa: eu detestava clássicos. Felizmente, a maturidade ensina que quase tudo o que se pensa na adolescência é uma grande besteira. Resolvi voltar às prateleiras de livros da minha casa e retomar a história de Brás Cubas. Com mais experiência e um vocabulário mais desenvolvido, passei a encontrar sentido no que lia e admirar a elegância do texto. Passei a compreender a história, a imaginar o processo de escrita, a querer buscar mais. De fato, tracei como objetivo ler tudo aquilo que me havia sido indicado e que eu, sumariamente, ignorava.

Compreendi que a razão por não ter gostado de obras canônicas no início de minha vida estudantil não eram as próprias obras. O problema era eu – minha ingenuidade juvenil, mais especificamente. Em uma das páginas de suas memórias, Brás Cubas dá um conselho do qual me valho não apenas nessa, mas em tantas outras situações: “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”. Livrei-me da minha ideia fixa. É provável que esse feito seja mérito da idade. No entanto, o conselho é válido: livrar-se de uma ideia fixa – qualquer que seja ela – é deixar-se crescer.

 
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Publicado por em março 4, 2011 em Lílian Stein

 

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